quarta-feira, 25 de junho de 2014

Garagem Cafe Racer Entrevista: Nuno Capêlo, da Capêlos Garage

Com muita alegria, anúncio uma nova seção aqui no blog: A Garagem Cafe Racer Entrevista, onde vamos buscar ampliar a visão sobre o mundo das Cafe Racers e da customização em geral, com entrevistas enriquecedoras. E a primeira entrevista começa em altíssimo nível, com o amigo Português Nuno Capêlo. Arquiteto e designer de motos responsável pela Capêlos Garage, que por exemplo é responsável por esse belíssimo design ai em cima que foi encomendado pela Dream Wheels Heritage com base numa Matchless G3, com uma pintura inspirada no Lotus do Ayrton Senna. Clique e mergulhe no mundo do design de motos customizadas e conhecer um pouco do trabalho e da rotina da Capêlos Garage.
Design usando uma Aprilia Tuono como base, através de um trabalho encomendado pela Motostrada.
Como foi o seu começo com o design? Em que momento você resolveu desenhar motocicletas? Há quanto tempo trabalha com isso? 

A ilustração e design de motos personalizadas surgiu na minha vida de forma quase simbiótica. A paixão pelas motos, a possibilidade de as personalizar, conferindo-lhes um carácter singular e único, associado ao profundo gosto pelo desenho desenvolvido desde tenra idade, com a ajuda dos meus pais, cuja confiança e motivação foram o motor para aprimorar a criatividade e engenho conduzindo-me ao momento presente. 

Fale sobre a rotina de trabalho? A demanda é grande? 

É um pouco mas quando fazemos aquilo que gostamos acaba sempre por ser mais fácil e agradável de ver as horas passarem, principalmente à frente do computador. a minha rotina é um pouco incerta pois à semanas inteiras passadas na oficina de volta das motos e outras totalmente sedentárias sentado em frente ao computador. 

Já que tocaste sobre essa questão da rotina incerta, fale um pouco mais sobre o processo criativo e como surgem as inspirações? 

As inspirações surgem sempre, umas mais difíceis que outras, mas acabam sempre por surgir, é verdade que algumas motas custam a desenvolver pois á primeira vista nem sei bem o que fazer, enquanto outras, são completamente o contrario, basta dizerem o modelo que tenho mil e uma ideias e não descanso até começar a riscar no papel as ideias gerais. Mas gosto sempre de desafios isto é, gosto de experimentar bases estranhas e até agora acho que não me têm corrido nada mal.

Quanto tempo em média para o desenho finalizado? Quais as ferramentas utilizadas para a confecção dos desenhos? 

Dizer ao certo o tempo que demora é difícil pois como já disse trata-se de um processo criativo e como é de se esperar ás vezes a primeira solução nem sempre é a melhor o que nos obriga a repensar e a refazer o trabalho já feito. As ferramentas utilizadas são muitas, primeiro que tudo, papel e caneta (ou ipad) são essenciais até chegar a um esquisso do caminho a seguir, depois entra o trabalho de desenho digital onde aí, sim, uso vários programas de tratamento de imagem e desenho vectorial, tudo com o apoio de uma Pen tablet. 
Matéria com a Capêlos Garage na revista italiana Riders
Quais são os principais pontos que você considera importantes em um design bem feito?

Para mim os principais pontos no design de motos são acima de tudo a proporção, a linha, e a simplicidade sou defensor da máxima “menos é mais” talvez algo que adquiri com a minha formação em arquitetura. Por vezes temos muitas ideias e queremos aplicá-las todas ao mesmo tempo e o normal é o trabalho tornar-se demasiado ruidoso visualmente, e desde à muitos anos que aprendi a filtrar e a controlar isso. 

Ao criar um projeto, o ideal é que além de as motos serem belas, elas precisam cumprir com o seu principal papel, que é o de rodar e proporcionar prazer na pilotagem. Assim sendo, como são pensadas questões práticas de execução do projeto, como por exemplo, os custos, o ferramental, a legislação entre outros aspectos? Quanto é necessário conhecer de engenharia, já que no caso de motocicletas as entranhas estão todas expostas, o que é um problema bem grande, no caso de uma moto moderna. 

Todas essas questões acabam muito por depender do cliente, claro que o maior interesse é que seja uma moto que desempenhe o seu papel a 100% : proporcionar prazer de pilotagem, mas por vezes o papel estético passa a primeiro plano tentando não comprometer muito o desempenho da moto. Mas à vários aspectos como a legislação, a utilização que o cliente quer dar e os custos; que dependem muito do país onde a mota vai rodar e do cliente. Quando é uma mota 100% nossa, o interesse é sempre o prazer de condução e estética e a cima de tudo que cumpra os objetivos pensados no projeto. Claro que não podemos criar algo sem perceber pelo menos o básico sobre o assunto, é sempre necessário algum conhecimento sobre a matéria, temos que saber como funciona uma moto e como os componentes trabalham uns com os outros senão a coisa pode correr muito mal, é verdade que nas motas antigas a engenharia é mais simples de compreender que nas motas modernas, e é normal depararmo-nos sempre com alguma coisa que nos ultrapassa o conhecimento, e é ai que entram os amigos e conhecidos, ninguém nasceu ensinado e quando não se sabe aprende-se e pesquisa-se ou então damos o trabalho a quem sabe. 
 Um  dos poucos projetos da Capelos Garage que será projetado e construído por nós. lembra muito que penso para meu projeto...
Vemos pelo mundo esse tipo de artista, porém aqui no Brasil não se tem conhecimento de designers que trabalhem dessa forma. Seria um reflexo de uma cultura motociclística bem desenvolvida nesses países europeus e principalmente de uma cultura de customização mais forte?

Sim penso que a resposta está na pergunta. Realmente não tenho conhecimento de nenhum brasileiro que faça este tipo de trabalhos e o mais provável é que seja isso mesmo, um reflexo de uma cultura motociclista e de customização mais forte e mais enraizada nos países europeus. 

Como é a relação com o customizador ou com o cliente que encomenda o projeto? Como são conciliados os gostos e ideias?

Neste caso acaba por ser como na arquitetura, o cliente chega com as suas ideias e através de várias conversas tentamos chegar a um resultado final que agrade ao cliente e que espelhe o meu gosto, tentando sempre mostrar ao cliente as várias maneiras possíveis, explicando o que fica bem e o que não fica bem, claro que nem sempre levo a melhor pois à clientes mais difíceis de convencer pois já vêm com ideias bem fixas sobre o que querem. Quando trabalho com construtores, alguns dão-me total liberdade criativa e outros não, pois já sabem exatamente o que pretendem e simplesmente querem a ideia deles executada em imagem. Trabalhar com quem faz motos é sempre melhor, pois é mais fácil de chegarmos a uma ideia final. 
O design dessa Yamaha foi pensado pela It Rocks, mas com a "renderização" feita pelo Capêlo.
É comum, em especial em projetos de garagem, se customizar as motos simplesmente mudando as peças sem um grande planejamento prévio. Na sua opinião, um mockup sketch é necessário para atingir ótimos resultados? 

Enquanto arquitecto e apaixonado por motas sei que um bom projeto é sempre a base de uma grande construção. A frase resume o conceito da Capêlos Garage: simplificar e ajudar nas construções. Como? A imagem digital funciona como fio condutor para a construção, reduzindo o tempo e os custos inerentes ao processo criativo. Estou convicto que desenhar e planear representam sempre uma mais valia para um projeto. Nesse sentido, os anos de experiência em desenho e manipulação de imagem, aliado ao perfeito conhecimento das proporções que queremos imprimir e da linha que queremos dar à mota constituem sempre uma ajuda muito valiosa, não perdendo tempo com o típico "será que isto ficava bem aqui?
Se houve propostas de montadoras ou outras empresas por conta desses desenhos e projetos? 

Sim já houve várias: It Rocks Bikes, Motostrada, Dreamwheels entre outros…

Se há pedidos de desenhos para coleção? 

Sim há, mais na parte de ilustração, nos projetos até agora só aconteceu uma vez quererem um dos meus projetos para ter exposto na parede, mas sim já aconteceu. 

Aproveitando o momento, gostaria de pedir algumas dicas para os leitores observarem em seus projetos Cafe Racer e similares e quem sabe conseguirem produzir alguns desenhos ou esboços, mesmo sem um grande talento no desenho? 

Como aprendi com uma grande professora de arte, o desenho aprende-se fazendo todos os dias só assim podemos treinar a mão e os olhos, uma dica e bastante importante é ter sempre atenção à anatomia da mota e perceber o que difere de uma para outra, pois uma café racer e uma chopper têm anatomias diferentes, inclinação da coluna, posição de condução etc. (a observação destes aspectos iram ajudar muito à criação) depois de isto percebido o resto vem com trabalho, gosto e dedicação. Uma maneira de começar é imprimir uma imagem da mota que queremos alterar e desenhar por cima da mesma as alterações pretendidas, ao fazer isto já estamos a dar um passo para perceber se a nossa ideia funciona ou não.
A moto do cara...
Como é sua visão sobre o movimento Cafe Racer atual: "Febre ou eterno?”

A minha visão é fenomenal, eterno há de ser sempre pois na verdade isto não começou ontem já existe à muito tempo, talvez neste momento estejamos a passar por uma fase de maior interesse pela população em geral, talvez seja isso que quer dizer com febre? Mas vejo essa febre com bons olhos pois é isso que faz com que as pessoas se interessem pelo assunto, falem e procurem, há de haver sempre quem se apaixone e fique ligado a isto para sempre e quanto mais for a febre melhor, pois maior será a possibilidade de aumentar o numero de apaixonados pelo assunto. Em Portugal estamos a passar por uma fase incrível que fica cada vez melhor todos os dias, aparecem novos construtores em todo o país, encaro tudo isto com bons olhos pois eu gosto é de ver bom trabalho e conhecer gente tão apaixonada por isto quanto eu.

Agradecimentos e observações:
  • Desde já agradeço ao Nuno pela disponibilidade para responder as perguntas, bem como ao amigo e parceiro Reginaldo Tenório por colaborar de forma extremamente valiosa na formulação desse questionário.
  • Essa seção não terá uma periodicidade fixa, pois dependo da disponibilidade dos entrevistados. Em breve teremos uma entrevista com outro grande nome do design de motos que vem despontando no cenário mundial.
  • Se você tiver alguma sugestão de pauta ou entrevistado, envie um e-mail para garagemcaferacer@gmail.com. 

5 comentários:

  1. Bela entrevista! Uma pena que realmente tenhamos tão poucas referências nacionais em termos de design de motos. Acredito que isso se deva sim, em parte, pela cultura de personalização de motos não estar devidamente enraizada em nosso pais, mas principalmente pela limitação que nos é imposta em nossas legislações de trânsito, que impedem muitas modificações e nos desencorajam a ariscar em novos projetos. Resultado disto, o mais próximo de personalização que vemos nas ruas são CG's e a fins com aros verde limão...

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    1. conhecer opinioes e conceitos e sempre otimo

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